FINANÇAS HÍBRIDAS ALAVANCAM NEGÓCIOSEstímulo para atrair o investidor

Estímulo para atrair o investidor privado, o chamado 'blended finance, movimentou US$ 65 bilhões no mundo ao longo de 2024

Andrea Vialli*

Os mecanismos de financiamento híbrido — o chamado blended finance, no jargão do mercado — têm sido vistos como uma estratégia para direcionar recursos para atividades de baixo carbono e de mitigação de emissões, e devem se consolidar como uma das soluções para reduzir a lacuna de financiamento climático nos próximos anos. O modelo combina diversas fontes de recursos em arranjos variados: mobiliza capital mais paciente — público, filantrópico ou de bancos de fomento — para reduzir riscos e atrair investidores privados. nessas modelagem, os agentes de fomento desembolsam recursos a um custo mais baixo ou atuam como provedores de garantias.

— o blended finance tem sido utilizado como um sub subsídio transitório, de modo que apenas uma parte do risco da transição para atividades de baixo carbono seja absorvida pelo setor privado — afirma José Otávio Passos, diretor na Amazônia da The Nature Conservancy (TNC) Brasil.

Globalmente, o fluxo de negócios com blended finance foi maior em 2024 que a média dos últimos cinco anos, saltando de US$ 38 bilhões entre 2020 e 2023 para US$ 65 bilhões no ano passado, segundo a Convergence, rede global especializada no tema.

— Se juntar todos os recursos filantrópicos do mundo, a conta não fecha, então o capital privado precisa entrar, e ele só vai entrar se fizer sentido para o investidor em termos de retorno e risco — diz Ricardo Gravina, co-CEO daClimate Ventures, organização com o objetivo de fortalecer o ecossistema de inovação climática no Brasil.

Segundo Gavina, o venture capital (capital que toma maiores riscos fecha) ligado ao clima já começa a aportar em negócios mais maduros, como os relacionados a energia renováveis e gestão de resíduos, mas precisa abraçar outros segmentos, como restauro florestal e tecnologias de baixo carbono na agricultura.

No Brasil, o blended finance começa a ser inserido em políticas públicas climáticas, como o programa Eco Invest do governo federal, que utiliza recursos do Tesouro Nacional para atrair capital privado a atividades elegíveis, como biocombustíveis, recuperação de pastagens degradadas, captura de carbono e produtos florestais, entre outras.

Na prática, as finanças híbridas têm sido muito utilizadas para financiar novos negócios que ainda são vistos como de alto risco pelas instituições financeiras. A Belterra Agroflorestas, cujo modelo de negócios é baseado no plantio de agroflorestas em larga escala, iniciou suas atividades em 2020 a partir de uma composição de capital de origem filantrópica, com apoiadores como o Fundo Vale e a Good Energies Foundation. Depois, veio a emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) pelo Santander, que foi considerado o primeiro no mercado brasileiro voltado para projetos de restauro de áreas degradadas com sistemas agroflorestais e apoio a pequenos produtores rurais. Mais recentemente, lançou, em parceria com a gestor de ativos Régia Capital, um Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) com valor alvo de R$ 130 milhões, em fase de captação. O fundo oferece como garantia adicional contratos de venda futura de cacau, que serão utilizados para dar mais segurança à operação.

Assim, as variadas composições de blended finance permitam a Belterra Agroflorestas, desde então, investir na recuperação de 7 mil hectares com sistemas agroflorestais. A empresa segue em tratativas com diferentes fundos de investimento para viabilizar a expansão do modelo para 40 mil hectares até 2032.

Apesar do empurrão inicial dado pelo blended finance, cada novo projeto exige uma engenharia financeira própria, capaz de alinhar diferente interesses de investidores em relação a retorno financeiro, prazos, taxas e perfis de risco.

— Hoje vemos um maior interesse por parte de investidores em fomentar o setor de restauro florestal, mas eles ainda estão buscando entender como fazer — Marcelo Pereti, diretor financeiro da Belterra Agroglirestais.

A AMAZ, a aceleradora de empresas de impacto na Amazônia, também utilizam um mecanismo de blended finance pagar apoiar empreendedores que atuam em negócios de impacto, nas áreas de bioeconomia, logística de baixo carbono, alimentação, turismo de base comunitária e arte indígena, entre outras.

Em 2021, foi composto um primeiro fundo, no total de R$ 25 milhões sendo metade de capital filantrópico e metade de investidores privados para apoiar os negócios. Em seu quinto ano de atuação e cinco editais lançados, a AMAZ investe nas empresas por um período pré-estabelecido — atualmente são 14 negócios no portiólio.

A partir do ano que vem, a aceleradora deverá compor um segundo fundo para captar outros R$ 25 milhões no mercado. A meta é alcançar até 2030, um total de 80 negócios investidos e um total de R$ 75 milhões abortados na região amazônica.

— O blended finance continuará no segundo fundo, mas sentimos a necessidade de ter mecanismo financeiro diferenciados para cada estágio dos negócios — diz o Gabriela Santos, gerente de operações da AMAZ.

Matéria publicada no jornal impresso do O Globo, no Especial COP 30 Amazônia.

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